Astrólogo brasileiro reescreve história de Jesus a partir de mapa astral elaborado no século XVII

O que dizer de um escritor que se aventurasse a contar pela milésima vez a história mais conhecida da humanidade? Das duas uma, ou ele seria um gênio, como foi José Saramago ao escrever O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ou ele teria algo de novo a dizer sobre uma das narrativas mais apaixonantes de todos os tempos.

O astrólogo Francisco Seabra faz um pouco de cada em seu livro O Evangelho segundo a Astrologia. Ao mesmo tempo em que conseguiu escrever um belo e tocante livro sobre a vida de Jesus de Nazaré, apresenta também uma audaciosa versão sobre os fatos contidos no Novo Testamento a respeito do nascimento, vida, morte e suposta ressurreição do Messias.

A partir de um documento real – o mapa astral de Jesus, calculado por Jean Baptiste Morin de Villefranche, no século XVII – Francisco Seabra faz um cotejamento entre os dados encontrados por Morin e os fatos narrados pelas escrituras. O resultado é uma história tocante, onde o Nazareno aparece como um místico que encanta multidões e provoca o ódio em líderes políticos e religiosos de Israel.

Morin foi um dos estudiosos mais respeitados da França no século XVII e era astrólogo pessoal do Cardeal Richelieu, que forneceu os dados sobre o nascimento de Jesus para a confecção do mapa astral. Francisco Seabra é hoje um dos astrólogos mais conhecidos do País, principalmente por suas ideias e posturas firmes em defesa de uma Astrologia racional e científica.

O livro, aliás, começa com o encontro dos três reis magos, todos eles astrólogos, dois anos antes do nascimento de Jesus, onde eles antecipam a chegada do Messias a Terra. “Precisamente em dois anos, à meia-noite, quando Júpiter se escondesse no horizonte da cidade de Belém, se daria a precessão dos equinócios. Era esperado um grande evento. Um grande evento sinalizando o término da Era de Áries e o início da Era de Peixes”, escreve Francisco Seabra no prólogo do livro.

A partir daí o romance O Evangelho segundo a Astrologia faz uma releitura surpreendente da vida de Jesus, sem contudo ignorar os fatos contidos no livro sagrado dos cristãos. Ao revelar um Cristo humanizado, suscetível à tristeza, à solidão, ao medo, à angústia, ao desejo e ao complexo de rejeição, o escritor acaba por tornar a figura do Messias ainda mais fascinante, justamente por fazer do filho de Maria um personagem mais complexo do que aquele mostrado pelas igrejas.

Figuras como Barrabás, Maria Madalena e Judas Iscariotes, personagens malditos ou legados a um segundo plano na versão tradicional da história de Jesus, no livro de Francisco Seabra ganham outra dimensão. E os pais bíblicos de Jesus, Maria e José, são submetidos a um duro julgamento, por terem, segundo a versão astrológica, abandonado Jesus ainda criança para ser criado pelos essênios.

Apesar da ousadia do livro, O Evangelho segundo a Astrologia não se encaixa no escaninho das obras que buscam a simples polêmica pela dilapidação dos dogmas da Igreja Católica – como fez O Código Da Vinci – ou no rol dos livros históricos que tentam provar a existência de um Cristo despido de santidade. O livro de Francisco Seabra consegue balançar algumas certezas, mas não deixa de mostrar de forma poética aquilo que estava escrito nas estrelas: que “então nasceria um rei, um ser único, um homem de grande mística que influenciaria o destino de toda a humanidade desde a Palestina, restabelecendo a palavra de Deus”. (BS)

Evangelho Segundo a Astrologia
Autor: Francisco Seabra
Editora Logos3, Brasilia

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